“NA VIDA NADA SE PERDE, TUDO SE TRANSFORMA”

13-10-2011 23:09

 

Não quero levantar bandeiras, porque para mim significa me agarrar a velhos pontos de referência. E é impossível parar no tempo. Portanto não me levem a mal, quem sou eu para criticar qualquer opinião com outra opinião. Mas resolvi escrever essa reflexão depois de ver uma imagem engraçada de um alface com a seguinte inscrição: “este alface morreu para você ser vegetariano. Tenha coração, coma pedra”. Bom, apesar de muitos não compartilharem da mesma visão, mesmo uma pedra é dotada de consciência, embora num nível mais denso e embrutecido. Então fica a questão: se alimentar seria uma violência?

Não existe violência na natureza, mas mecanismos de equilíbrio. A vida é um movimento cíclico que envolve nascimento, desenvolvimento e morte. Aquilo que nasce está fadado a morrer e esse processo não passa de uma transformação. Não há nada de mal ou errado com a morte, é só mais uma etapa perfeitamente natural dentro de um ciclo em constante renovação. Uma árvore morre e dá espaço a outras. Ainda retorna a terra e se decompõe em nutrientes que alimentam todo um sistema que necessita de matéria-prima para continuar. Uma gazela anda em bandos maiores que um leão. Quando um leão mata uma gazela, além de garantir a sobrevivência de seu bando, também faz o controle populacional de outra espécie, que não pode crescer em detrimento do ecossistema. Assim como no seu corpo físico ocorrem funções que você não controla e nem mesmo está ciente, há uma inteligência por trás de todo o cosmo. Somos apenas fractais de existência. Níveis de manifestação da Consciência, que é uma, o oceano do qual somos ondas. Não há maldade, violência na natureza, mas a sustentação e harmonia de um organismo vivo maior que uma única espécie, um único ser ou uma única célula. Apesar de se falar muito em seleção natural e competição na biologia, a maioria das relações entre os seres são simbióticas, de mútuo benefício. E o que nos parece na natureza muitas vezes atos cruéis contra a vida, são a favor dela quando inseridos num contexto maior.

Alimentar-se é natural. Nosso veículo para experimentar o mundo material é um corpo denso e finito que necessita de matéria-prima para sua manutenção e desenvolvimento, porque ele próprio passa por ciclos de nascimento e morte. Para mim, violência é agir sem consciência, o que acontece em diversos níveis, não envolve apenas um ato agressivo contra si mesmo, seus semelhantes ou o planeta, mas também palavras e pensamentos. Sendo os pensamentos ainda mais perigosos, porque atuam no mundo invisível, onde é difícil percebê-los até sua manifestação no plano físico, quando já não há mais muito a se fazer – apenas lançar luz sobre eles. Acreditamos agir com plena liberdade de escolha, quando no fundo optamos pela trilha conhecida a qual fomos condicionados. A maior parte do tempo agimos pelo princípio do prazer, como crianças. A mente é binária e quer desfrutar, só aceita o prazer. Iludidos pela dualidade, acabamos cometendo atos violentos, porque perdemos de vista essa relação de harmonia entre nós como unidade e parte de um todo maior. Nos consideramos partes isoladas, absolutas e descontínuas, quando na verdade somos uma manifestação da Consciência Cósmica e, portanto, interdependentes.

 

Seja para comer um animal ou uma planta, é preciso sempre recordar-se da nossa conexão com esta Consciência Una da qual tudo deriva. Uma morte só é justificável quando serve a sustentação de um bem maior. A vida alimentando a si mesma numa autofagia criadora. Quando um índio matava um animal para se alimentar ou retirava madeira da floresta para construir um abrigo, ele pedia permissão para saciar sua necessidade e agradecia à Mãe Terra pelo bem concedido. O índio entendia que somos todos parte de uma mesma teia e que tudo o que acontece a esta teia acontece à ele. A natureza era vista como uma mãe nutridora e benevolente, e não uma coisa fora de controle a ser dominada e explorada. A natureza era uma extensão de nós mesmos, nosso corpo.


Em maior ou menor grau, estamos presos a antigos padrões, vivendo o passado, não o presente. A mente tende a parar no tempo e, identificados a ela, nos apegamos à pontos finais – convicções, hábitos, imagens. No fim acreditamos ser uma entidade fixa, imutável. Mas na verdade somos um constante processo de vir a ser. Mesmo nosso corpo físico, que aparenta ser tão sólido e permanente, é formado por subpartículas atômicas que estão continuamente aparecendo e desaparecendo em fração de 1 trilhonésimo de segundo. Ou seja, não passamos de vibração. A cada sete anos todas as células do nosso corpo são renovadas. O único fio que liga você agora com o bebê de anos atrás é a sua Consciência, eterna, essencial, infinita. Por quê, então, nos apegarmos a uma personalidade que, como tudo, está em constante mutação?

 

Muitos argumentam que o ser humano come carne desde sempre e por isso não há motivos para mudar, é instintivo. Não quero colocar em termos de certo e errado, porque nada (a não ser o dharma) é absoluto. Mas consideremos o fator evolução. Não precisamos nem voltar à era do gelo, que foi uma privação total. Antes da agricultura e da criação de animais, quando o homem era nômade. Os alimentos não eram tão abundantes quanto hoje, que produzimos o dobro do necessário para alimentar o planeta inteiro. Nem havia toda essa variedade de alimentos acessível em qualquer lugar e estação do ano. Cada qual se virava com o que o terra e o clima geravam de acordo com os ciclos naturais. Então fazia sentido comer carne. É substancioso, nutritivo, pesado, com certeza os homens enfrentavam longos períodos sem comida. Depois surgiu a agricultura e a criação de animais, mas ainda assim era outra organização sócio-econômica, política, a população era menor, o consumo não obedecia a oferta, não existia globalização, enfim, outra era. E a carne, que sempre foi um hábito, também complementava uma dieta que ainda não era tão rica e variada, e em algumas regiões mais frias, provavelmente era necessária. Mas as sociedades se desenvolveram, transcendemos barreiras de tempo e espaço. Hoje há uma grande variedade de alimentos disponíveis em qualquer época do ano. E a carne se tornou um produto lucrativo, e que comprovadamente até alimenta a agressividade de um sistema que exige uma postura agressiva e competitiva do indivíduo para ocupar seu espaço. Não significa que comer carne é condenável, merece um estigma. Mas não é porque nascemos e crescemos comendo carne e assim é desde os nossos ancestrais mais remotos que não precisamos questionar o hábito. O hábito é só parte do inconsciente coletivo, não parte inerente da “natureza imutável” humana. Se assim o fosse, ignoramos o nosso trunfo sobre os instintos: um lóbulo frontal altamente desenvolvido que nos torna autoconscientes. Portanto é possível confrontarmos padrões e fazermos escolhas reais, de acordo com princípios que transcendem espaço e tempo. É possível nos afinarmos a própria inteligência que organiza a multiplicidade num movimento de evolução. A dinâmica da vida é flexível e tem uma harmonia além do nosso alcance de compreensão.
 

O sofrimento de um vegetal é o mesmo de um animal? A complexidade de um animal é muito maior que a de um vegetal. Sim, as plantas respondem a estímulos como música, toque, se comunicam e merecem reverência como tudo no universo. Mas existe uma escala evolutiva. A maioria das plantas também não morre para que a gente se alimente delas e muitas ainda se beneficiam com a poda. Sem falar nas frutíferas, que tem suas sementes espalhadas por aí. E quando se mata uma planta para seu bom uso, ela morre feliz porque cumpriu sua função, você lhe deu uma finalidade. E já que falamos em evolução, é interessante apontar que nenhum carnívoro tem um intestino tão longo quanto o nosso, que mede de 6 a 9 m de comprimento, o que interfere bastante na digestibilidade deste alimento. Outra curiosidade é que as novas gerações já nascem sem os dentes caninos, encontrados em animais onívoros e bem desenvolvido em animais carnívoros. Ou seja, nossa estrutura anatômica também está mudando. Se considerarmos que nosso corpo físico é apenas a camada mais grosseira de mais 4 corpos de diferentes graus de sutileza, faz sentido pensar que uma mudança anatômica é uma manifestação física que já se operou num nível mais sutil do inconsciente coletivo. Por isso cuidado com os pontos finais. Comer carne só é um hábito gravado na substância mental, como sulcos cravados em pedra, o que não significa que seja parte permanente de quem somos. O tempo destrói tudo, só assim podemos nos reinventar eternamente.

Sem radicalismos. A brincadeira de estar vivo é experimentar. E escolhas, como o vegetarianismo, não passam de transformações internas que dependem muito da busca e do processo de cada um, que também são mutáveis. Nossa única opção é penetrarmos no centro das experiências e permitir que elas simplesmente sejam, compreendendo nosso papel na criação. Para alguém que mora no Himalaia talvez faça sentido comer carne. Ou quem trabalha na terra, cortando cana. Para um yogi que busca se purificar, a carne intoxica o corpo e embota a mente. Fazendo um paralelo: assim como uma mulher pode se realizar com a maternidade, uma monja tem outro uso para a sua energia sexual, que é a sua elevação para centros superiores de consciência. Somos fenômenos únicos, vivendo processos únicos. Quem sabe pelo que precisamos passar para mergulhar fundo nos mistérios da vida? Até Buda comia carne quando lhe ofereciam. O interessante é que as transformações aconteçam naturalmente, como conseqüência de um profundo entendimento, sendo assim incorporadas ao nosso novo eu. Os caminhos em si não são superiores nem inferiores, apenas experiências que fazem sentido agora e amanhã podem não fazer mais. Por isso viver com o coração aberto, sem se agarrar a definições, sem limitar seu potencial infinito.

Muito se fala do vegetarianismo como uma prática de ahimsa, não-violência, porque significa não se alimentar de morte nem compactuar com a coisificação dos animais, o sofrimento alheio. Mas se engana aquele que se glorifica por tal “sacrifício”, quando é apenas um ato isolado de oferenda pontuado por virgulas, precisa sempre ser ampliado a um contexto maior. Agimos como o centro do universo, mas não de nosso universo pessoal. É como se quiséssemos ocupar a posição do Sol em vez de ocuparmos o centro do nosso ser. Os valores que movem a sociedade capitalista giram em torno do indivíduo e o que move o indivíduo é seu sentido de auto-importância. E quando nos sentimos o elo mais importante de toda a corrente, rompemos com ela. Pensamos que tudo existe para nos servir e satisfazer, sem notar que não ocupamos o topo da pirâmide, mas somos o ramo de uma árvore. Árvore essa que retira sua energia tanto das folhas quanto das raízes. Ou seja, cada parte tem sua função na manutenção da vida e é preciso humildade para reconhecer isso. Pense no câncer, uma das maiores causas de morte na atualidade. Pense no estrago que algumas células causam ao agirem em benefício próprio, como entidades isoladas, competindo com o resto do seu organismo. É uma perda de integridade. Somos nós e esse sentimento de separatividade. Nós, agindo pelo princípio do prazer, sacrificando a viagem com a mente fixa no destino. Mas não há destino, apenas uma miragem perdida no espaço/tempo. Por isso o vegetarianismo, como fator isolado, não irá salvar o mundo. É apenas um passo dado em direção ao infinito.


Antes de ser vegetariano por um mundo melhor perceba o que isto significa para você. Porque ahimsa engloba muito mais do que o “não matarás”. É um reconhecimento da unidade de tudo. É um amor incondicional por toda a criação. Por isso não levanto a bandeira do vegetarianismo e, sim, a bandeira da consciência. Em uma sociedade predatória e sensualista, que reduz o mundo a um relógio constituído por pequenas peças substituíveis, é mais importante falar em auto-conhecimento, sustentabilidade e valores do que vegetarianismo. Afinal mesmo uma monocultura empobrece o solo, gera alimentos de baixo valor nutricional, quebra os pequenos produtores, aumenta a incidência de pragas, depende de produtos químicos que contaminam o meio ambiente e geram doenças. Ou seja, prejudica um sistema político, sócio-econômico e ambiental. A não-violência é muito mais ampla, não se limita a respeitar o direito a vida do animal, mas compreende todo um conjunto de valores que determinam a harmonia das relações na teia da vida.

Imagine se cada um de nós pudesse realizar os nossos insaciáveis desejos pessoais? O caos se instalaria, porque a pluralidade, inerente à manifestação, é relativa e os desejos, que são parte do mundo invisível, não seriam compartilhados. Vivenciamos esses choques de realidade diariamente porque não estamos conectados a Consciência que permeia a criação. Perseguir cegamente o prazer é ignorar seu oposto complementar. Como se o prazer pudesse existir dissociado da dor. Em outras palavras, ficamos à deriva, sem entender exatamente o propósito das experiências. Nos tornamos joguete do destino mas com a fé cega na idéia de que somos livres para fazer o que bem entendemos. O livre-arbítrio é espontâneo e requer presença, aceitação, confiança e entrega. Estar inteiro, perceber que ao mesmo tempo que influenciamos, somos influenciados – a realidade não é algo que acontece lá fora. Aceitar que as coisas são como são sem limitarmos as percepções à subjetividade maniqueísta da mente. Confiar em algo maior que o drama da sua existência. E se entregar como instrumento da Consciência.     


Hoje é extremamente difícil estar inserido no mundo e não gerar impacto nenhum, mas cada passo dado com responsabilidade contribuirá para essa transição. É impossível mudar todos os seus hábitos da noite para o dia, não se trata só de uma decisão racional. Envolve também vigilância e insight, compreender com o coração. O verdadeiro livre-arbítrio está em escolher com discernimento, optar muitas vezes pelo desconhecido, confrontar padrões, sem apegos. Desapegar-se significa entender que nada que possa ser definido é absoluto. Por isso não levanto bandeiras. Se o fizesse, estaria limitando meu poder infinito de me reinventar a cada instante.  

Por Carolina Cruz

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